Editorial nº 24

Le Tour de France
João Santos
O almoço no "Zimmer" e a ousadia proposta por Geo Lefèvre ao patrão Henri Desgrange: uma Volta a França em bicicleta; a vitória de Maurice Garin em 1903 e etapas pioneiras de quatrocentos quilómetros corridas de noite e de dia; os 125 quilos de tachas espalhados na estrada na edição 1905 por adeptos fanáticos; a morte de Rene Pottier, que se suicidou após a infidelidade da mulher quando pedalava no Tour (1906); a estreia dos Pirenéus em 1910 e o telegrama para a redacção do l'Auto: "Passamos o Tourmalet+stop+estrada em bom estado+stop+nenhuma dificuldade para os corredores"; a imagem de Eugène Christophe a reparar a sua própria forqueta partida numa serralharia sob a vigilância de três comissários, que o penalizaram quando um rapaz lhe passou o maçarico já em lume; a vitória de Henri Pélissier no Tour em 1923 e mais tarde baleado pela esposa num acesso de cíumes; o mesmo Pelissier que afirmou, no ano seguinte, a Albert Londres, o autor da expressão dos "Les forçats de la route", que "um dia [os comissários] vão nos encher os bolsos de chumbo por que se lembrarão que Deus fez o homem demasiado ligeiro"; o discurso socialista de Ottavio Bottecchia contra o fascismo; as primeiras equipas de selecções em 1930; a vitória do piedoso "Bartali", religioso como poucos no Tour 1948; as duas garrafas de vinho que adormeceram Abdelkader Zaaf, durante uma hora, quando seguia em fuga. Parou para se alimentar e retomou a marcha no sentido contrário; o triunfo de Fausto Coppi no Alpe d'Huez na primeira chegada em alto em 1958; a queda pela ravina de Roger Rivière, promessa de 24 anos, a caminho de Avignon que o deixou paraplégico e o acelerou para um cancro fatal aos 40 anos; as noitadas de copos e mulheres de Jacques Anquetil, "monsieur Chrono", e os seus duelos com Raymond Poulidor imortalizados na foto lado-a-lado no Puy d'Dôme; a morte de Simpson no Ventoux com o bolso e o corpo cheio de anfetaminas; o início da série canibal Eddy Merckx nos anos 70; o tombo de Luis Ocanã na descida do col de Mente no ano (1971) em que poderia ter batido Merckx; a primeira vitória de Bernard Hinault em 1979 e o duelo fraticida com Greg Lemond, anos mais tarde, na equipa milionária de Bernard Tapie; o triunfo dopado de Pedro Delgado em 1988; os oito segundos nos campos elíseos na fantástica derrota de Laurent Fignon em 1989; 1991, o início da série de Indurain e as cavalgadas fantásticas de Chiapucci; a morte de Casartelli em 1995; ano 1998 e o caso Festina e a vitória de Pantani; a queda de Beloki e José Azevedo ao seu lado em 2003; a monotonia vitoriosa Lance Armstrong inaugurada em 1999, a louca cavalgada de Floyd Landis com testosterona; a exclusão de Rasmussen, a decepção de Vinokourov em 2007 e a vitória pálida de Contador...
PS: a estreia Alves Barbosa, a era Agostinho, as vitórias de etapa de Acácio da Silva e Paulo Ferreira e o seu Sporting; o contra-relógio de José Azevedo no Alpe'Duez, os esforços de Paulinho (...).
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